2009 foi um dos anos mais complicados de sempre do mercado das T.I. Porém, apesar de tudo, não consigo deixar escapar uma data histórica que celebra os quarenta anos de história de uma das mais importantes marcas existentes, a AMD.
Fundada em 1969 por um grupo de antigos engenheiros da Fairchild Semiconductor. Na altura foi pedido a Jerry Sanders para se juntar, tendo este aceite a proposta com a contrapartida de ser o presidente da nova Advanced Micro Devices. Esta medida originou alguns conflictos no inicio, mas rápidamente o genial vendedor da Fairchild demonstrou que sabia não só gerir bem a empresa como criar um excelente ambiente de trabalho, dando aos seus trabalhadores regalias (como prémios de trabalho, acções da empresa) impensáveis para a altura.
Um claro exemplo disso foi quando a AMD atingiu o seu primeiro milhão de dolares num trimestre, Sanders dirigiu-se à porta principal da empresa e deu, pessoalmente, notas de 100 dolares a todos os seus funcionários. Sanders ficou também conhecido por ter impedido algo que viu acontecer na Fairchild (e em outras empresas da mesma dimensão), que eram os habituais despedimentos em massa quando as vendas desciam significativamente. Em vez de despedir, Sanders pedia aos seus funcionários para trabalharem aos fins de semana, de forma a conseguirem criar novos e melhores produtos mais rápidamente, de modo a aumentar as vendas. Os resultados foram tão bons que só em 2002 é que Sanders cedeu o seu lugar a Héctor Ruiz, um homem escolhido por Sanders que em 2000 era o presidente da divisão de semicondutores da Motorola.
Era x86
Apesar de terem começado a desenvolver os primeiros chips de desenho próprio em 1970 (o AM2501), foi só a partir da familia AM2900 em 1975 é que conseguiram ser reconhecidos no mercado e ter o sucesso necessário para poderem entrar na bolsa de valores de Nova Iorque.
Em 1979 foram contractados pela Intel para trabalharem como fornecedor de processadores x86, que estavam a registar uma procura muito superior às capacidades de produção das fábricas da Intel. O resultado foi o lançamento de processadores clone do 8086, 8088 e mais tarde do AM286. A qualidade dos processadores criados pela AMD era tal que a Intel viu-se de certa forma obrigada a contracta-los para poder cumprir o contracto milionário com a IBM, em1982, que obrigava a todos os seus fornecedores a apresentarem um fornecedor auxiliar.

Foi, mais uma vez, Jerry Sanders que conseguiu este excelente contracto com a IBM e Intel, permitindo assim à AMD ter acesso a técnologias e arquitecturas que de outra forma levariam anos e anos de pesquisa e desenvolvimento. Apesar do sucesso deste contracto, a Intel em 1986 decidiu cancelar tudo por verificar que a AMD estava a ganhar mais do que deveria, por estarem a apropriar-se de tecnologias que tanto custaram à Intel desenvolver. Esta foi a primeira batalha judicial entre os dois principais fabricantes de processadores do mercado, tendo sido resolvido só oito anos depois, tendo o Supremo tribunal da California declarado a Intel como culpada no processo. Antes que a disputa acabasse, sairam em 1991 os primeiros AM386 e AM486, clones dos modelos Intel 386 e 486 da Intel, que no entanto devido ao baixo custo dos mesmos, conseguiram ter uma excelente aceitação por parte de diversos OEM de grandes dimensões, como a Compaq. O AM5x86 foi outro produto de sucesso que conseguia atingir um desempenho superior aos 486 da Intel e equiparável aos novos modelos Pentium.

Família K
Em 1995 a AMD lança o seu primeiro processador x86 totalmente desenvolvido pelos seus engenheiros, K5. A utilização da letra K neste processador significa Kriptonite, a única substancia capaz de enfraquecer o Super-Homem, que neste caso é representado pela Intel e pelo seu dominio absoluto no mercado. Em 1996 a AMD adquire a NexGen, que os ajudou a desenvolver a segunda geração de processadores K, um brilhante rival dos processadores Pentium e de certa forma Pentium II, oferecendo um excelente desempenho com um custo bastante baixo. 1999 ficará marcado com o lançamento do K7, que fora designado por Athlon.
Athlon
Este processador veio dar um novo impulso porque finalmente permitiu à AMD estar à frente da Intel no que toca ao desempenho, caracteristicas técnicas e tecnologias utilizadas. O sucesso foi tal que permitiu à AMD ser a primeira empresa a conseguir produzir um processador com uma velocidade de funcionamento de 1GHz, de forma estável e fiável, algo que a Intel não estava a conseguir com os seus Pentium III. O modelo seguinde, designado por Thunderbird,apresentou uma inovação ao deixar o formato de cartucho para chip (Socket-A) permitiu integrar os anteriores 512KB de cache L2 externo (a metade da velocidade do CPU) por 256KB integrada no chip, à mesma velocidade do CPU, que por sua vez, podia já atingir os 1,4GHz nos modelos com 133MHz de FSB.
Porém, apesar de os Thunderbird terem um desempenho excelente que conseguiu eclipsar todos os PentiumIII que a Intel lançou, e até mesmo os Pentium4 iniciais, o P4 1.7GHz já se revelou como um adversário complicado para os Tbird, pelo que a AMD viu-se de certa forma obrigada a desenvolver um novo modelo da familia Athlon, o modelo XP. Este, designado por Palomino, utilizou uma nomenclatura para o caracterizar, ou seja, os modelos que funcionavam entre 1,33 e 1,53GHz tinham como nome AthlonXP 1500+ e 1800+, respectivamente. Esta mudança permitiu demonstrar como, apesar de terem uma velocidade de funcionamento inferior, o seu desempenho era equivalente aos modelos da concorrencia com essa velocidade (um Athlon XP a 1,53GHz tinha o desempenho de um Pentium4 a 1800MHz, daí a designação 1800+). Mais tarde sairam os modelos Thoroughbred (T-Bred) que usavam um processo de fabrico de 130nm, e os modelos Barton que, por usarem o dobro da memória cache dos T-Bred, viram as suas nomenclaturas subirem (até 3200+), sem se registar aumentos na velocidade de funcionamento.
Athlon64
Com esta jogada, a AMD voltou a revolucionar o mercado, ao oferecer pela primeira vez, um processador capaz de processar instruções de 64 bits destinado ao mercado de consumo doméstico. Porém, apesar de processar nativamente as instruções de 64bits, era totalmente compatível com as (ainda) actuais instruções de 32bits sem qualquer tipo de emulação e sem perda de desempenho, antes pelo contrário. Inicialmente sairam para o Socket 754, pois suportavam apenas um só canal de memória, mas mais tarde foram lançados os modelos 939, que podiam já usufruir de todas as vantagens a nível de desempenho, recorrendo à comunicação de duplo canal de memórias.
Outra grande inovação dos Athlon64 foi o facto de este ter sido o primeiro processador no mercado a integrar o controlador de memória no próprio processador (em vez de no Northbridge do chipset), diminuindo assim, de forma significativa, as latências de comunicação entre o processador e as memórias. Mais tarde sairam os primeiros modelos de dois núcleos, designados como AthlonX2, enquanto os modelos Athlon64 FX estavam destinados aos entusiastas que procuravam o melhor desempenho e a possibilidade de fazerem overclock graças ao multiplicador totalmente desbloqueado. Actualmente a AMD ainda comercializa os processadores Athlon64, que se encontram na segunda geração, usando a arquitectura estreada nos topos de gama Phenom II.
Geração Phenom
A intel com o lançamento dos seus Core 2 Duo vieram, literalmente, cortar as pernas à AMD, por oferecerem um desempenho brutal com um preço bastante acessível. Isso obrigou à AMD a ter que voltar a desenhar tudo de novo e a desenvolver um processador de quatro núcleos nativo que conseguisse juntar todas as tecnologias que a AMD tinha apresentado no passado, uma boa eficiencia energética e um desempenho adequado. O resultado foi o novo Phenom que infelizmente teve a vida assombrada com o famoso (pelos piores motivos) bug do TLB. Este bug obrigou à AMD a ter que disponibilizar actualizações aos fabricantes de motherboards para desactivarem algumas funções nas BIOS de modo a evitar a corrupção de dados causada pelas falhas no TLB. Isto, como seria de esperar, saiu bem caro à AMD, tanto a nível de vendas como de reputação, mas felizmente souberam dar a volta com os excelentes Phenom II, lançados no ano passado. Estes tinham o problema do TLB resolvido, e conseguiam oferecer um desempenho excelente para o preço pedido. Este resultado foi obtido graças à correcção de todos os erros do desenho original, como à inclusão de cache L3 (partilhada) entre todos os núcleos de 6MB (o triplo do modelo original).

O sucesso foi imediato, pois o seu excelente preço e desempenho tornaram-no numa excelente alternativa aos modelos Core 2 Duo da Intel que ainda dominam o mercado.
Aquisição ATI
Em 2006, um ano em que a AMD lutava pela sua sobrevivência, o mercado foi surpreendido com a compra de toda a AMD pelo impressionante valor de 5,4 mil milhões de dolares. A fusão só ficou concluida em 2007, e a ATI, que manteve a sua identidade (nome, logotipo e registos de marca) passou a ser a divisão gráfica da AMD. Curiosamente, desde essa altura, a ATI tem conseguido recuperar toda a quota de mercado perdida ao longo dos últimos anos face à concorrente Nvidia e encontra-se neste preciso momento a dominar o mercado de controladoras gráficas dedicadas, sendo o único fabricante no momento a oferecer uma familia completa de produtos compatíveis com o novo DirectX 11 da Microsoft.
Para finalizar este artigo, resta-me dizer que a vida da AMD, enquanto concorrente directo da Intel, tem sido tudo menos fácil, mas enquanto entusiasta e jornalista do meio, se não fosse a AMD, estes últimos 15 anos (altura em que me envolvi neste mundo) teriam sido uma autêntica seca. Como tal, obrigado e os meus parabéns à AMD, que nos consigam surpreender com excelentes produtos por muitos mais.



